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Olá, eu sou a Ana, mãe de 2 pequenos, professora e exploradora do Método Montessori em casa e na escola. Sê bem-vind@ ao meu blog ❤️
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sábado, 17 de agosto de 2019

Liberdade e Disciplina em Montessori



Nas escolas regulares, é comum ouvirem-se gritos por parte dos professores, usados maioritariamente para o controlo da disciplina da sua turma. Além disso, utiliza-se como recurso, para ajudar a manter a ordem, Prémios e Castigos, que, na verdade, só promovem o afastamento emocional e social das crianças umas das outras (e do seu professor) e provocam uma sensação de incapacidade e baixa auto-estima daqueles que nunca conseguem lá chegar, no caso dos Prémios, e sentimentos de inferioridade e baixa de auto-estima também no caso dos que são castigados.

Como se processa, então, em Montessori, o controlo da ordem e do caos que pode surgir quando se lida com crianças?





Uma definição de Liberdade poderia ser “o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa” (in Dicionário). Uma definição mais de acordo com Montessori, seria “A faculdade do ser humano decidir e levar a cabo ou não determinada ação segundo a sua inteligência e vontade. A liberdade é a faculdade que permite também aos outros atuar, já que está regida pela Justiça” (in Apontamentos). Atuar em Liberdade implica, naturalmente, saber o que é bom e importante para nós, o nosso caminho e missão nesta Terra, tendo a força de vontade, a autodisciplina e a independência necessárias para atuar de forma a conseguir alcançar aquilo a que nos propomos, tornando-nos, ao mesmo tempo, responsáveis pelas consequências que possam advir dessa ação.


            Para podermos ser livres, temos de desenvolver a vontade, a autodisciplina e a independência, e são exatamente essas características do carácter que se podem formar num Ambiente Montessori. Neste ambiente, as crianças têm liberdade de movimento por todo o espaço (seja interior ou exterior); de expressão (verbal, não-verbal, artística…), de seguir os seus interesses, de eleger o que querem fazer de todas as atividades que já lhe foram apresentadas, de trabalhar todo o tempo que queiram, de não trabalhar, de falar e comunicar-se com os outros, de observar os outros a trabalhar, de comer e beber sempre que sintam vontade, de ir à casa-de-banho sem necessitar de pedir autorização a um adulto, de decidir ver ou não a apresentação de algum material, de ensinar ou não os outros, de ajudar ou não os outros. Neste ambiente, as crianças possuem estas várias liberdades que vão de encontro com as suas necessidades e ao mesmo tempo com as necessidades dos outros, respeitando os ritmos e curiosidades/vontades naturais de cada criança, permitindo uma maior consciência e construção de uma auto e hetero-noção saudáveis e ao mesmo tempo úteis, promovendo assim a concentração, a segurança, a paciência e a coesão social do grupo que cresce e se constrói nesse ambiente.


            No entanto, para haver uma Liberdade com respeito, tem de haver também alguns limites, sendo por isso que nas sociedades em geral há sempre leis que servem para proteger e defender os direitos e deveres de todos os seus cidadãos em prol da igualdade e da coesão social, assim como ajudar a dar forma à integridade do indivíduo. Os limites, como as leis, ajudam a que todos possam agir com liberdade e independência sem, no entanto, prejudicarem o seu próximo ou o seu ambiente.

Em Montessori, pode-se falar de 4 limites básicos que permitem o bom funcionamento dos Ambientes Montessori e a autodisciplina das crianças que nele se constroem. Assim, estes limites contemplam: 1 – O Interesse Coletivo – a criança não poderá fazer nada que a prejudique a ela ou aos outros; 2 – O Conhecimento Precede a Ação – a criança utilizará só os materiais que já lhe foram apresentados, e se quiser conhecer um material, deve esperar até que alguém lho apresente, no tempo adequado; 3 – O Uso do Material – este deve ser utilizado de forma apropriada, para a função que lhe é especifica (se a criança desejar auto-expressar a sua fantasia, pode sempre ser dirigida ou ir para a área de Arte e utilizar o barro, a pintura, a dança… como forma de libertar essa expressão); 4 – O Material é Limitado a 1 exemplar – só existe no ambiente um exemplar de cada material, pelo que a criança deve esperar no caso de alguém estar já a usá-lo, ou então pode juntar-se à outra criança, caso esta aceite usar o material em conjunto.

Ser livre implica ainda conhecer os limites do lugar onde o ser humano se encontra, compreendendo porque existem e para que servem, implica o desenvolvimento da vontade para controlar-se e obedecer-se a si mesmo, e implica a capacidade de movimento em qualquer lugar. Liberdade é atividade e a Disciplina provém dela.

A Disciplina de um Ambiente Montessori provém da liberdade que se dá à criança de trabalhar seguindo a sua ordem interna, que por sua vez se torna ordem exterior, de momentos que demonstram calma e autodisciplina, “…uma espécie de paz ativa, de obediência e de amor…”, onde a criança normalizada “…continuará a acumular trabalho terminado do qual os outros nada sabem, obedecendo simplesmente à necessidade de produzir e aperfeiçoar os frutos de seu trabalho. O que lhe interessa é terminar o seu trabalho, não se importa com o fato de ele poder ser admirado nem deseja amontoá-lo como propriedade sua: o nobre instinto que o move está muito longe do orgulho e da avareza.”[1]

Para chegar a este nível de autodisciplina e obediência, a criança passa por 3 fases de obediência. É importante conhecer estas fases para que se saiba lidar da forma mais correta e respeitosa com a criança, de acordo com o seu nível de desenvolvimento. Para obedecer, a criança necessita primeiro de se sentir segura e aceite por completo, no seu todo.

O Primeiro Nível de Obediência corresponde ao primeiro período da vida, em que as ações da criança obedecem ao “horme” (impulso vital). Nesta fase, a criança, que terá entre 0 e 2 anos de idade, obedece ocasionalmente. Pode acontecer a criança obedecer uma vez e não o fazer na vez seguinte. Tal comportamento é normal, uma vez que depende do grau de desenvolvimento das suas capacidades. “…se a criança ainda não é senhora de suas ações, se não consegue obedecer à sua própria vontade, muito menos conseguirá obedecer a uma outra pessoa.”[2] Esta condição pode ser observada por qualquer pai ou adulto, sendo normalmente aceite socialmente.

O Segundo Nível de Obediência, que normalmente se pode observar o seu iniciar por volta dos 2 anos e meio, corresponde a uma fase em que a criança pode obedecer sempre, pois as suas habilidades estão bem consolidadas e podem ser dirigidas pela sua vontade própria, mas também pela vontade de uma outra pessoa. No entanto, ainda assim, pode haver crianças que ainda não o façam, dependendo do grau seu desenvolvimento pessoal. Este é o grau desejado pelos professores de escolas tradicionais, sem mais evoluções.

No entanto, Maria Montessori fala-nos de um Terceiro Nível de Obediência, onde a criança ultrapassa a relação com a habilidade adquirida, dirigindo então a sua obediência para uma personalidade da qual já sente a superioridade, amor e carinho. Para Maria Montessori, a criança poderia pensar algo do género de: “Esta pessoa que está tão acima de mim, pode penetrar na minha inteligência com um poder especial todo dela e me fazer tão grande como ela. Age dentro de mim.”[3] Este sentimento parece proporcionar à criança muita alegria, e a criança torna-se impaciente e ansiosa para obedecer a esta pessoa especial, pois percebe que a mesma pode elevá-la. Daí que uma Guia Montessori tem de ter muito cuidado e responsabilidade em tudo o que diz, pois uma criança nesta fase obedecer-lhe-á quase cegamente. A diferença entre um líder e um tirano está exatamente aí: um líder sente a responsabilidade de liderar estes seres que o seguem com cuidado, justiça e correção, mas um tirano aproveita-se deste seguir e destrói o ser e a confiança nele depositada.

No Método Montessori, trabalham-se os dois lados que levam ao exercício da força de vontade, da autodisciplina e da liberdade/independência da criança: de um lado a vontade de escolher e trabalhar livremente, e do outro, a inibição dos impulsos que não correspondem ao respeito por si, pelos outros e pelo Ambiente.



CONCLUSÃO:

            As características do Ambiente Montessori, do Material Montessori e do Adulto Preparado Montessori, aliados às observações científicas realizadas por Maria Montessori e seus/suas Guias ao longo de quase um século sobre o desenvolvimento da criança, alicerçam a ideia de que a Liberdade e Disciplina estão interligadíssimas, num contexto de respeito pela criança. Uma e outra são duas faces da mesma moeda, que andam de mãos dadas e permitem uma autorregulação da criança, não sendo, para tal, necessário qualquer tipo de Elogios, Prémios ou Castigos, assim como gritos ou outras formas mais retrógadas e desgastantes usadas durante séculos pela figura do professor para controlar um grupo de crianças.

            Num ambiente Montessori, as crianças são livres e por isso disciplinadas e responsáveis, sabendo estar, intuitivamente e por coesão social, umas com as outras, sabendo resolver sozinhas os (poucos) conflitos que possam surgir e ficando, acima de tudo, felizes e satisfeitas por poder obedecer à sua vontade pessoal e também a um adulto de referência. A sua alegria contempla ainda o poderem trabalhar em conjunto e/ou poder apreciarou ajudar o trabalho dos outros colegas. Neste ambiente crescem felizes, calmas, autorreguladas, livres e saudáveis.

            Por fim, acrescento apenas uma reflexão muito pertinente realizada por Maria Montessori, no seu livro “Educar para un nuevo mundo”, em 1946, de modo a provocar os professores que ainda hoje utilizam métodos rudimentares de controlo da disciplina: “Como podemos falar de Democracia e Liberdade se desde a mais terna infância já estamos formatando as crianças para que suportem uma tirania e obedeçam às ordens de um ditador? Como podemos pretender viver em Democracia, se criámos escravos? A verdadeira liberdade começa quando começa a vida, não na idade adulta. Há gente a quem se despojou as suas potencialidades, a quem se tornou míope, a quem se tirou as forças mediante um esgotamento mental, a quem se deixou com o corpo deformado, a quem fizeram em pedaços a vontade os maiores que lhes diziam “Não se fará nada do que tu queres, prevalecerão os meus desejos!”. Como é possível pretender que, ao terminar a escola, esta gente aceite e exerça os direitos da liberdade?”[4]



[1] “A Mente Absorvente”, p. 295 e 296
[2] “Mente Absorvente”, p. 278
[3] “Mente Absorvente”, p. 280
[4] Tradução do espanhol realizada para este trabalho.



BIBLIOGRAFIA:

        MONTESSORI, M. Educar para uns nuevo mundo. Montessori-Pierson Publishing Company, Amsterdão, Países Baixos. 2016 – obra originalmente publicada por Maria Montessori em 1946.



        MONTESSORI, M. El método de la Pedagogia científica – Aplicado a la educación de la infancia em las “Case dei Bambini. Editorial Biblioteca Nueva, S. L., Madrid. 2015 – obra originalmente publicada por Maria Montessori em 1909.



        MONTESSORI, M. Mente Absorvente Editora Nórdica, S. Paulo, Brasil, 1987 – obra originalmente publicada por Maria Montessori na Índia em 1949.



        Apontamentos do Curso de Assistentes Montessori 3 – 6 anos no Porto, 2017, pela formadora Guadalupe Borbolla, Guia AMI.


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Passear


Maria Montessori escreveu no seu livro "A Mente Absorvente":

"Consideremos a criança de dois anos e a sua necessidade de caminhar. É natural que ela manifeste a tendência para andar, nela se prepara o homem e todas as faculdades essenciais humanas precisam se formar.

Uma criança de dois anos pode caminhar por dois ou três quilómetros, e, se lhe agrada, dependurar-se; os pontos difíceis ao longo do caminho constituirão para ela os elementos mais interessantes.

Precisa-se entender que o andar significa para a criança algo muito diverso daquilo que significa para nós. A ideia que ela não possa caminhar durante um percurso muito longo depende das nossas pretensões de fazê-la caminhar acompanhando nossa velocidade, e isto é tão absurdo quanto seria para nós, por exemplo, tentar acompanhar um cavalo até que este dissesse, vendo-nos sem fôlego: “Não adianta; monte e chegaremos juntos lá embaixo”. Mas a criança não quer chegar “lá embaixo”, ela quer tão-somente andar; e como as suas pernas são desproporcionais em relação às nossas, não devemos fazê-la nos acompanhar, mas segui-la.

A necessidade de seguir a criança é clara neste caso, porém não nos devemos esquecer que ela é a regra para a educação dos pequeninos em todas as áreas. A criança tem as suas leis de desenvolvimento e se desejamos ajudá-la a crescer, devemos segui-la, e não nos impormos a ela."







"Ela caminha não só com as pernas, mas com os olhos também; as coisas interessantes que a rodeiam é que a compelem a ir adiante. Anda e vê surgir um cordeirinho, senta-se ao lado dele para observá-lo, depois levanta-se e vai um pouco mais adiante ... vê uma flor, cheira-a... em seguida vê uma árvore, alcança-a, anda em volta dela por umas três ou quatro vezes, senta-se e olha-a."



"Deste modo pode ir adiante por quilómetros a fio: são passeios interrompidos por períodos de repouso e, ao mesmo tempo, repleto de descobertas interessantes, e, se ao longo do caminho há algum obstáculo, por exemplo, uma rocha, a criança se sente superfeliz. A água constitui para ela uma outra grande atração: sentar-se-á ao lado de um riacho e dirá toda satisfeita: “Água!” O adulto que a acompanha e que deseja  chegar o mais rápido possível a um determinado lugar, concebe a caminhada de modo bastante diverso."




"Os hábitos das crianças são parecidos com aqueles das primeiras tribos sobre a terra. (...) O homem caminhava até que encontrasse alguma coisa que o atraísse e interessasse: uma floresta onde pudesse colher lenha, um campo do qual pudesse extrair forragem, e assim por diante. A criança procede desta maneira natural. O instinto de se mover pelo ambiente, passando de uma descoberta a outra, faz parte da natureza própria e da educação: esta deve considerar a criança que caminha como se fora uma exploradora."






"O princípio de explorar (scouting) que actualmente constituo uma distracção e um repouso do estudo, deveria, pelo contrário, fazer parte da própria educação e ser iniciado o mais cedo possível no decorrer da vida. 

Todas as crianças deveriam caminhar assim, guiadas por aquilo que as atrai; e, neste sentido, a educação pode ajudar a criança, dando-lhe na escola uma preparação, ou seja, ensinando-lhe as cores, a forma e as nervuras das folhas, os hábitos dos insectos e de outros animais etc.

 Tudo isto proporcionará motivos de interesse; quanto mais aprender, mais caminhará. Para explorar, a criança deve ser orientada por um interesse intelectual que a nós cabe lhe proporcionar."




Caminhar é um exercício completo em si mesmo, que não requer outros esforços ginásticos. O homem caminhando respira e digere melhor, goza de todas as vantagens que buscamos nos esportes.

É um exercício que forma a beleza do corpo, e se durante o passeio encontra-se alguma coisa interessante para recolher e classificar, ou um valão para pular, ou lenha para juntar para o fogo, com estas ações que acompanham o passeio — esticar os braços, vergar o corpo — o exercício torna-se perfeito."





"A medida que o homem progride nos estudos, o seu interesse intelectual cresce, e com ele cresce também a atividade do corpo. O caminho da educação deve acompanhar o caminho da evolução; caminhar e olhar cada vez mais distante, de modo que, assim, a vida da criança se enriqueça cada vez mais. 

Este princípio deveria fazer parte da educação, sobretudo hoje, que as pessoas pouco caminham, mas se deixam transportar por veículos de todos os tipos. Não é bom dividir a vida em dois, ocupando os membros com o esporte e a cabeça com a leitura de um livro, A vida deve ser uma coisa única, especialmente nos primeiríssimos anos, quando a criança deve construir â si mesma segundo o plano e as leis de seu desenvolvimento." 

Páginas 182 a 185


Perfeito, não é?

Ana